terça-feira, 26 de abril de 2011

Escaroupim: A neta de avieiros que sempre preferiu viver em casas de madeira


«A rua principal da pequena aldeia de Escaroupim, no concelho de Salvaterra de Magos, desemboca num grande largo com vista sobre o rio Tejo. Do lado esquerdo uma casa palafítica, pintada de verde-claro, construída por avieiros, mantém-se conservada e decorada e foi transformada em museu para os visitantes conhecerem melhor o modo de vida dos pescadores oriundos de Vieira de Leiria.




É Maria Cacilda Rabita, 71 anos, quem faz as visitas guiadas ao museu da Câmara Municipal de Salvaterra de Magos há cerca de oito anos. Quem quiser visitar o local tem que ligar para o telefone de casa, que está sempre disponível. Maria Cacilda Rabita faz as visitas sem ganhar um cêntimo. “Faço isto de boa vontade. Estar nesta casa e contar a história dos avieiros é contar também um pouco da minha história”, explica enquanto mostra o museu.

Neta e filha de avieiros, Cacilda Rabita nasceu dentro do barco do pai nas margens do rio Tejo. Cresceu no Escaroupim, sempre vivendo numa casa de madeira, e aos seis anos já construía as redes para pescar no rio. A vida não foi fácil. Aos nove anos foi trabalhar para a monda do arroz para as zonas de Marinhais e Valada (Cartaxo). Trabalhou depois no campo até à idade da reforma, há cerca de seis anos. É a mais velha de oito irmãos e nunca foi à escola. A sua maior mágoa é não saber ler nem escrever. “Chorava sempre que tinha que assinar o recibo do vencimento mensal porque tinha que carimbar o papel com o dedo”, lamenta.

Depois de casar foi viver, pela primeira vez, para uma casa rente ao chão mas não se habituou à casa feita de tijolo e cimento. Quando o seu tio foi morar para a zona do Cartaxo pediu-lhe para ficar a residir na sua barraca, como lhe chama. O marido, que trabalhava em Lisboa, só ia a casa ao fim-de-semana e não sabia das ideias da esposa. “Quando o meu marido chegou e percebeu que eu já tinha voltado a morar numa barraca só me disse que eu não descansava enquanto não me mudasse. Ele preferia viver numa casa com mais conforto mas não me contrariou. Matei o meu desejo”, conta com um sorriso rasgado.

Para ficar com uma casa maior para viver com o marido e os dois filhos que entretanto nasceram, Cacilda Rabita comprou a barraca do irmão quando este resolveu viver em Salvaterra de Magos. Viveu feliz até que a madeira começou a apodrecer e não houve outra solução senão deitar as casas abaixo. “Foi um grande desgosto, um dos dias mais tristes da minha vida mas o restauro das barracas seria muito caro e o mais sensato foi construir uma casa de tijolo para vivermos mais confortáveis”, concorda.

Maria Cacilda divide os seus dias entre os afazeres domésticos, a sua pequena horta e as visitas guiadas ao museu. Apesar de os tempos não estarem fáceis, dona Cacilda garante que não deixa a aldeia do Escaroupim. “Isto é um pequeno paraíso que felizmente ainda não está descoberto”, conclui.

Casa de bonecas em ponto grande

A comparação do museu dos avieiros a uma casa de bonecas em ponto grande é imediata. Todas as casas avieiras são construídas sobre estacas de madeira para evitar as cheias do rio. A casa que serve de museu dos avieiros também foi construída assim, mas devido à degradação que sofria a madeira as estacas foram substituídas por tijolo e cimento.

A entrada para o museu faz-se através de umas escadas. A parte exterior da casa está pintada de verde-claro. Entramos directamente para a sala – a divisão maior da casa – de onde se destaca o azul das paredes. Na sala, que faz a ligação entre a cozinha e os quartos, encontra-se uma balança de pesar a pescaria e as redes com que se apanhavam os peixes.

No chão um ferro para passar roupa a brasas. “Era muito difícil passar a ferro porque tínhamos que colocar muitas brasas e demorava muito tempo a passar uma peça de roupa”. Em frente duas malas de lata, onde se guardava o enxoval, tapadas com cortinas para embelezar o espaço. Ao lado uma bacia onde lavavam as mãos e o rosto. “Para tomarmos banho utilizávamos baldes de barro”, conta Maria Cacilda.

Os quartos são exíguos onde cabe apenas uma cama de ferro e uma pequena mesa-de-cabeceira. Maria Cacilda recorda que o colchão onde dormiam era feito de palha de arroz. Na cozinha destacam-se as mesas e banquinhos baixinhos onde tomavam o pequeno-almoço. Ao lado uma mesa maior onde eram servidas as outras refeições. Cacilda conta que viveu tempos difíceis. “Naquela altura uma sardinha tinha que dar para dois. Quando a família era grande tínhamos uma tigela grande por onde todos comíamos. Se não quiséssemos depois já não havia mais”, recorda.

A um dos cantos da pequena cozinha, também pintada de azul, uma enorme bilha servia para guardar a água-pé. “Ao final do dia quando regressávamos do trabalho roubávamos uvas para fazermos água-pé”, conta.»

 
Texto in O MIRANTE online, 25-4-2011
Imagem in Google

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